Marcha pela Saúde

Feminismos

6 de Junho de 2002

Para alguns, "a globalização é o melhor dos mundos; só o comércio livre permite o crescimento económico e essa é a esperança dos mais pobres".
Interrogo-me: este tipo de afirmações são feitas por ignorância ou por cinismo?
Para muitos milhões de pessoas, só a pobreza cresceu, nestes últimos 20 gloriosos anos de enorme circulação de capitais.
Esta globalização não assenta na solidariedade social, nem no respeito pelos direitos humanos.
Esta globalização assenta:
  • no empobrecimento intolerável de milhões de pessoas (600 milhões ganham menos de 1 dolár por dia);
  • na concentração do poder e da riqueza (as 200 pessoas mais ricas do mundo têm um rendimento superior ao rendimento de 40% da população mais pobre do planeta);
  • na degradação dos recursos naturais do planeta e na progressiva desqualificação do trabalho humano.
"O amargo sabor do chocolate" título de um editorial recente do Público punha a nu a escravidão que ensombra o mundo, neste início do 3º milénio. "Metade dos chocolates consumidos no mundo são fabricados com cacau produzido com mão de obra de crianças escravas" (in Jornal Público de 28/5/2002). Na Costa do Marfim, 15 mil crianças são sujeitas a trabalho forçado na plantação de cacau. Segundo a associação anti-esclavagista internacional haverá, pelo menos, 27 milhões de escravos em todo o mundo, sem falarmos dos novos escravos do trabalho imigrante no continente europeu.
Aos meninos da Costa do Marfim há a juntar milhões de meninas vendidas pelas famílias ou raptadas para servir como domésticas ou escravas sexuais dos seus donos.
Da Argélia ao Afeganistão, o fundamentalismo encarcera as mulheres no véu da submissão mais atroz, onde os mais elementares direitos humanos são negados. As mulheres são seres reprodutores, serviçais dos homens, enclausuradas pelo medo de serem degoladas ou apedrejadas até à morte. 130 milhões de jovens raparigas foram alvo de mutilação genital. Na Índia registam-se 10 mil casos anuais de infanticídio feminino e as viúvas continuam a ser queimadas em piras funerárias, num ritual a que se dá o nome de "sati".
Mas, estas situações não constituem preocupação das reuniões do G8, o grupo dos 8 países mais ricos do mundo, que entre si consertam a forma de dominar os circuitos financeiros, económicos e políticos mundiais. Como se afirma no último Boletim da Marcha Mundial de Mulheres: "G8 e Mulheres são mundos separados". Tal como no documento apresentado, pela Marcha, no Forum Social Mundial em Porto Alegre se refere: "Este tipo de globalização acentua a feminização massiva e crescente da pobreza e perpetua e provoca múltiplas formas de violência contra as mulheres. Porque se constrói sobre a desigualdade, a mundialização atira numerosas mulheres para a marginalidade e provoca uma maior exclusão, especialmente daquelas submetidas a opressões múltiplas. Esta globalização não é apenas capitalista e neoliberal, é também sexista. Os sistemas mundiais capitalista, neoliberal e patriarcal que se nutrem e reforçam mantêm a imensa maioria das mulheres numa inferioridade cultural, desvalorização social, marginalidade económica e numa iinvisibilidade da sua existência e do seu trabalho".

E os números falam por si:
  • As mulheres são responsáveis por 2/3 das horas trabalhadas no mundo, mas ganham 1/10 do rendimento mundial.
  • Mais de 70% da população mundial que vive em miséria extrema é constituída por mulheres. Os seus salários representam, em média, 50 a 80% dos salários dos homens.
  • Dos 900 milhões de analfabetos, dois terços são mulheres.
  • Em todo o mundo 78 mil mulheres morrem de abortos clandestinos e inseguros. 40% da população feminina não tem acesso a cuidados de saúde sexual e reprodutiva.
  • 3 a 4 milhões de mulheres são vítimas de violência, na maioria dos casos de violência doméstica.
  • 5 mil mulheres são mortas, todos os anos, por membros das suas famílias por motivos de "honra".
Mas estes não são só os números frios das estatísticas. Por detrás destes números existem seres humanos, existem mulheres que têm rosto.
E existe o crescer de uma consciência de que este mundo é injusto e amargo, de um amargo que nos invade por dentro, perante a indiferença e o cinismo dos que vêem nesta globalização o sinal inequívoco da modernidade e o fim da História. Para esses, esta globalização é um comboio em alta velocidade que ninguém pode parar.
Mas a história mais recente dos movimentos por uma globalização alternativa mostra que é possível meter alguns paus na engrenagem para fazer descarrilar esse comboio e, porque não, fazê-lo mudar de direcção.
Em Seattle, em 1999, o mundo viu, pela primeira vez, que existia resistência a esta globalização neoliberal.
A Marcha Mundial de Mulheres, no ano 2000, mostrou os enormes laços de solidariedade que podem unir as mulheres do mundo inteiro. De Março a Outubro de 2000, em 157 países, centenas e centenas de realizações mobilizaram milhares de mulheres contra a pobreza e a violência. Em Bruxelas, a 14 de Outubro, em Washington a 15 de Outubro e em Nova Yorque a 17 de Outubro, milhares de mulheres invadiram as ruas mostrando que "outro mundo é possível". Participante que fui, nesta Marcha, em Nova Yorque, ficou-me a memória da diversidade de faixas, de cartazes, de panos de todas as cores, de uma imensa massa de mulheres que fez parar o trânsito na 2ª avenida e que, das nações Unidas à Union Square, num percurso de quase 4 Km, não pararam de gritar, de cantar e de denunciar as discriminações que pesam sobre mais de metade da humanidade. "So, solidarité, avec des femmes du monde entier" ainda hoje soa, de forma muito nítida, nos meus ouvidos. Valeram-nos alguns escassos minutos na CNN, numa comunicação cada vez mais globalizada e monopolizada pela oligarquia financeira da comunicação social a nível mundial.
Nas "marchantes" ficou o ânimo para novas marchas e lutas numa rede mundial "internetizada" que tem marcado presença no Forum Social Mundial em Porto Alegre e nas movimentações por uma globalização alternativa. As movimentações em Genebra, Melbourne, Praga, Nice e mais recentemente em Génova e Barcelona têm contribuído para forjar uma cultura de resistência num movimento muito plural, contra os efeitos perversos do neo-liberalismo.
Nos últimos tempos tem crescido uma consciência colectiva mundial de que é preciso lutar contra esta globalização. Um número crescente de pessoas recusa: a ditadura dos mercados, o fanatismo neoliberal, os fundamentalismos, o sexismo nas relações entre as pessoas.
Um maior número de mulheres e homens querem um mundo solidário, justo, livre, sem racismo nem exclusão social, construído na base da igualdade entre mulheres e homens, que valorize o ambiente, o trabalho e uma cidadania activa capaz de colocar as pessoas a decidir sobre os seus próprios destinos. Utopia? Decerto. Mas é por aí que vamos.

Manuela Tavares

II Seminário sobre o Movimento Feminista
UMAR Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto
5 e 6 de Abril de 2003
Resumos das comunicações do painel “Violência sobre as mulheres”


Violência em função do sexo

A comunicação da Maria do Céu Cunha Rego aborda a violência em função do sexo, entre homens e mulheres, no modelo estruturante da nossa sociedade – o modelo patriarcal. Este modelo subsiste mantendo o determinismo de gênero, o falso neutro, a diferença natural de sexo... discursos contraditórios com o discurso da igualdade e da paridade. São estes discursos que, parafraseando Maria do Céu Cunha Rego, que “(...) constituem uma forma de violência sistêmica em função do sexo”, atingindo quer homens, quer mulheres.
Maria do Céu Cunha Rego, questiona-se, e faz-nos questionar, de quem ganha com a desigualdade entre homens e mulheres... Perdem ambos! Esta organização social sustentada na diferença natural de sexo pretende perpetuar a ordem social do modelo patriarcal. A naturalização do sexo é uma questão de poder que legitima o modelo referido.
Termina afirmando que para que a organização social crie condições para rejeitar a violência em função do sexo, é necessário:
  • a reflexão , “(...) o questionamento individual e institucional sobre o como da organização social com participação equilibrada das mulheres e dos homens em todas as esferas da vida”;
  • rejeitar o falso neutro;
  • introdução ou reforço de medidas que encoragem a participação das mulheres na esfera pública e a participação dos homens na esfera privada;
  • e ainda, a sensibilização e formação na área da igualdade.

Mulheres Agredidas pelos Maridos: de vitimas a sobreviventes

Fátima Jorge Monteiro, na sua comunicação tem como pano de fundo a sua investigação “Mulheres Agredidas pelos Maridos: de vitimas a sobreviventes” (Monteiro, 1999).
Tal como a Maria do Céu Cunha Rego, esta considera que a desigualdade de géneros fundamenta-se na diferença natural entre sexos. A investigadora levanta a questão de como o debate e o desenvolvimento do conceito de género está associado aos estudos da violência contra as mulheres. Género, como categoria de análise cultural, social e histórica, tem vindo a dar visibilidade à construção da diferença entre sexos e permitir (re)construir concepções assumidas como universais e “naturais”.
Fátima Monteiro aponta a pertinência e importância das organizações de mulheres, a nível mundial, e sua promoção de discussões teóricas em torno da situação de vida das mesmas, na alteração do problema que é a violência contra as mulheres. Afirma que “A violência na família contra as mulheres (...) [A investigadora apresenta outros tipos de violência contra as mulheres – pornografia, tráfico de mulheres, mutilação genital, violação «massiva» das mulheres em contexto de guerra....] é uma violência de género com uma função social, na medida em que afecta profundamente a participação social das (...)” mesmas.
Segundo esta investigadora, a violência contra as mulheres é uma das expressões da desigualdade sócio-histórica entre os sexos.
Para terminar, apresentou algumas conclusões do estudo que realizou:
  • Contrariamente à imagem de vítimas passivas, as mulheres estabeleceram muitos e diversos contactos com serviços de apoio (polícia, hospitais, tribunais...) para interromper a violência ao longo dos anos de relacionamento abusivo
  • Para interromper o ciclo de violência, as mulheres puseram em prática estratégias individuais – pessoais ou dos membros da sua rede natural (familiares e vizinhos)
  • Neste estudo, a ausência de estratégias adequadas por parte da rede de suporte formal (profissional) parece ser um dos factores de manutenção dos ciclos de violência (primário e secundário).

Violência nas relações amorosas: comportamentos e atitudes na população universitária

Marlene Matos, com a sua comunicação pretendeu abordar um tipo de violência contra as mulheres, exercido num contexto de intimidade, mas fora da conjugalidade, ou seja, do casamento. A abordagem apresentada incide sobre a violência nas relações amorosas, na camada populacional juvenil – “dating violence” ou “court ship violence”. Este tipo de violência é considerado actualmente um importante preditor da violência conjugal, como também um problema social que merece toda a atenção.
A questão que esta investigadora levanta é saber se a violência no contexto das relações de namoro é um processo, que tal como a violência conjugal, parafraseando as autoras do artigo – Marlene Matos e Carla Machado, “(...)pode ser compreendido por referência às diferenças sociais e culturais de poder e estatuto entre homens e mulheres, ou se, pelo contrário, há transformações culturais (...) que traduzam em novas dinâmicas relacionais e diferentes motivações e discursos sobre a violência nas relações afectivas juvenis.”.
A sua comunicação apresentou uma investigação realizada com uma população de estudantes universitários – Universidade do Minho - sobre crenças comportamentais de violência no contexto das relações amorosas. Esta investigação teve como objectivos centrais:
  • conhecer a forma como a população juvenil percebe a violência, quer seja física, psicológica ou sexual, exercida no contexto das relações intimas;
  • obter dados sobre a prevalência destes comportamentos abusivos nas suas relações afectivas.

Como objectivos específicos:

  • “(...) caracterizar as atitudes da população juvenil em relação à violência contra parceiros amorosos, identificando o grau de tolerância/legitimação em relação a este fenómeno e os factores que para ela contribuem;
  • identificar a prevalência de diferentes formas de violência nas relações afectivas da população jovem, quer do ponto de vista das vitimas, quer dos agressores;
  • analisar a relação entre atitudes e comportamentos violentos nas relações amorosas;
  • identificar factores sócio-demográficos (sexo) e formativos (tipo de curso, ano de formação) associados às crenças e comportamentos violentos nas relações intimas.”.
Marlene Matos apresentou, como conclusões desta investigação, os seguintes dados:

O estudo permitiu desocultar a realidade da violência nas relações intimas não conjugais, evidenciando o facto de que este problema não é exclusivo ao casamento ou relações maritais, nem que seja algo que esteja a desvanecer-se nas gerações jovens. Os níveis globais de legitimação da violência são baixos, no entanto, os sujeitos masculinos e de anos de formação mais iniciais têm atitudes mais tolerantes em relação à violência. Existe uma percentagem significativa de estudantes que admitem condutas violentas (actos de «pequena violência») no contexto das suas relações de namoro. Para terminar, tanto agressores como vitimas, adoptam atitudes de desvalorização destes actos, minimização que pode contribuir para a perpetuação de condutas abusivas.
Marlene Matos alerta para o facto de ser necessário reflectir na prevenção e apoio às vitimas da população juvenil.

A Psicologia Feminista e a Violência contra as Mulheres na Intimidade: A (Re)Construção dos Espaços Terapêuticos

Sofia Neves apresentou na sua comunicação uma reflexão critica “(...) sobre os pressupostos gerais das Metodologias feministas aplicados ao exercício da Psicologia, especificamente em contextos terapêuticos.”. Realiza uma “(...) breve alusão ao enquadramento histórico que esteve subjacente à emergência da Psicologia Feminista, bem como aos princípios que estiveram na base do desenvolvimento de novas e inovadoras práticas terapêuticas dirigidas sobretudo a mulheres, numa lógica de intervenção feminista.”
Esta investigadora afirma que “a construção das relações e dos contextos terapêuticos apoiada no principio da igualdade é assumida como uma componente central na Psicologia feminista, assim como a questão da minimização das posições de poder no âmago das dinâmicas interpessoais criadas entre terapeuta e cliente. As asserções feministas acerca da edificação dos laços terapêuticos entre terapeuta e cliente fornecem importantes pistas sobre o modo como os/as psicólogos/as devem trabalhar os processos de promoção da paridade em espaços de avaliação e de intervenção.”. Sofia Neves levanta algumas considerações, que considera pertinentes a sua discussão, associadas à implementação de processos terapêuticos, integrados numa Psicologia feminista, em situações de vitimização na intimidade.

A violência contra as mulheres ou Combater os mitos e a lenda do Sebastião

A comunicação de Carlos Poiares inicia por incidir numa breve alusão ao fenómeno da violência, historicamente, afirmando que esta não é um fenómeno recente e que faz parte dos quotidianos das sucessivas gerações que constituem a humanidade.
A violência representa uma relação de poder entre o EU/NÓS em relação ao OUTRO(S) e que se traduz em comportamentos violentos e lesivos dos direitos das vitimas. Representa uma imposição que não é aceite livremente e “(...) que persiste em todos os ciclos históricos e em vários quadrantes político-ideológicos, reconvertendo-se, pórem, e revestindo-se de novas modalidades” (Poiares, 2003:2).
Carlos Poiares percorre a história da humanidade desde as fogueiras medievais até à actualidade.
A violência não pode ser associada com a agressividade, pois pode ou não incluir discursos e práticas agressivas. As explicações ou causalidades da violência têm uma pluricausalidade que deve ser analisada tendo em consideração os processos de construção social.
A sua comunicação, Carlos Poiares refere dois tipos de violência: a soft e a hard, que, no entanto, podem coexistir numa conduta violenta, num processo progressivo. Acrescenta ainda a violência concentrada e a violência disseminada. De seguida, problematiza a ambivalência que existe em torno deste fenómeno, onde, actualmente, as mudanças se revelam na consciência (da comunidade e política) que da mesma se tem, e o repúdio que suscita; na mediatização, de que se fala e escreve cada vez mais, o que traz a negatividade da violência para junto de nós; a transformação da violência em objecto do investimento político.
Depois de contextualizar o fenómeno, tanto historicamente com a nível da sua conceptualização, Carlos Poiares focaliza a sua análise na violência conjugal/doméstica, contextualizando-a legislativamente e na perspectiva da Psicologia Criminal e do Comportamento Desviante. Ao problematizar este fenómeno, cria uma metáfora com origem na cantiga (sexista e tantas vezes cantada às crianças....) do Sebastião que, depois de tudo comer, dá porrada na mulher, para explicar como este tipo de conduta violenta tem sido naturalizada e minimizada socialmente.
Carlos Poiares termina ao afirmar que esta cantiga continua a ser cantada e vivenciada por muitos Sebastiões, onde as vitimas se entregam ao conformismo, sendo por isso necessário acreditar que “é possível viver de outra maneira”, e lutar contra formas de perpetuação deste tipo de cultura violenta.
Comunicação no Congresso Luso Afro-Brasileiro, Coimbra 2004
Manuela Tavares, Almerinda Bento, Maria José Magalhães, Cecília Costa

O caso da Marcha Mundial de Mulheres{akgallery}

A globalização, ao exacerbar as desigualdades sociais, mostrou que as mudanças tecnológicas, laborais, culturais, políticas e sociais dos últimos quarenta anos apesar de provocarem evoluções e rupturas reforçaram também continuidades na opressão, subordinação e exploração das mulheres.

Os anos de 1990 são apontados como a década em que os feminismos se globalizaram.
Diversas análises atribuem este processo às Conferências das Nações Unidas sobre os Direitos das Mulheres.
Contudo outros encontros regionais de feministas tiveram lugar nas décadas de 1980 e 1990 fora do enquadramento destas conferências.
É o caso das redes feministas da América Latina.

Em Outubro de 1998 a Federação de Mulheres do Quebec realizou um encontro internacional com mulheres de todos os continentes.
Nasceu assim a Marcha Mundial de Mulheres.

Novo salto qualitativo no feminismo internacional com a MMM ?
Pela primeira vez, de forma autónoma, em relação às instituições, sem ser debaixo do “chapéu de chuva” das Nações Unidas, 100 mil mulheres mobilizam-se em 159 países contra a violência e a pobreza.

Objectivos da Marcha Mundial de Mulheres no ano 2000
  • Agir contra a pobreza e violência exercida sobre as mulheres
  • Promover a igualdade entre mulheres e homens
  • Pressionar governos e instituições internacionais a impulsionar mudanças
  • Assinalar a entrada no novo milénio mostrando a determinação das mulheres em mudarem o mundo
Valores do projecto da MMM:
  • A liderança da organização está nas mãos das mulheres
  • Todas as regiões do mundo partilham a liderança das acções
  • Os grupos participantes que adiram à MMM permanecem autónomos quanto à organização das acções nos seus países
  • Respeito e valorização da diversidade do movimento

Acções realizadas:
  • Desenvolveram-se acções em 159 países que culminaram com uma manifestação em Nova Iorque no dia 17 de Outubro de 2000 onde estiveram 10 mil mulheres.
  • Em cada continente aconteceram realizações semelhantes. Na Europa 30 mil pessoas manifestaram-se em Bruxelas.
  • Em cada país realizaram-se debates, protestos, marchas que mobilizaram milhares de mulheres.Em Portugal, realizou-sem em Lisboa uma manifestação no dia 7 de Outubro.
  • A MMM tem participado em todos os Fóruns Sociais Mundiais.
  • Em Portugal participou no FSP (Junho de 2003) tendo surgido nessa altura a Rede Lilás que tem funcionado como coordenadora portuguesa da MMM.

Vigo- 2004 – Acção da MMM
30 mil mulheres nas ruas de Vigo

Será que a emergência de redes e acções mundiais na área dos feminismos nos conduz a uma ideia de “feminismo global”, reforçando factores identitários homogéneos ou a diversidade e pluralidade de sujeitos e acções marcam os feminismos destes tempos de globalização ?

Que relação se tem estabelecida entre as redes feministas e os movimentos alterglobalização?
Tem sido possível articular agendas ?

Estaremos perante uma nova vaga dos feminismos?

Os feminismos que sempre se caracterizaram por uma dimensão internacionalista não ficaram fora dos movimentos dos fóruns sociais,tendo introduzido temas fundamentais para a reflexão e acção política.

Os movimentos de mulheres introduziram nos fóruns sociais temas fundamentais numa óptica de emancipação.
Não apenas uma óptica de género transversal para interpretar o mundo.
Mas também conceitos como a multiplicidade de sujeitos o que implica a não subordinação de uma contradição em relação às outras.
Nadia De Mond
Representante da Marcha Mundial de Mulheres no Comité Inerernacional dos Fóruns Sociais Mundiais

Importância da participação feminista nos fóruns sociais:

“No FSM ainda há resistências em interpretar o patriarcado como um sistema político e social que sustenta a globalização neoliberal” (Diane Matte – Coord. MMM e da Federação de Mulheres do Quebec)

“Afirmar a agenda feminista ... Questionar padrões centralizadores e patriarcais de desenvolvimento e apresentar alternativas” ( Miriam Nobre e Nalu Faria – SOF/Brasileira)

“Compromisso com as lutas colectivas dos movimentos sociais e transformar a sua perspectiva em relação ao feminismo” ( Virginia Vargas – Rede Articulación Feminista Marcosur)

Participação das mulheres nos fóruns sociais:

  •  FSM – 2001 –mulheres foram 52% dos participantes, MAS a sua presença não foi reflectida nas mesas dos debates.
  • FSM- 2002 – Um dos eixos temáticos principais teve um painel sobre “Cultura da violência – violência doméstica”
  •  FSM – 2003 – Dois dos cinco eixos principais forma organizados pela MMM e pela Articulação Feminista Marcosur
  •  FSM- 2004 – Maior participação de mulheres dos meios mais populares que transbordaram em milhares de iniciativas os espaços das conferências.
  • FSEuropeu – 2003 – Paris – Fórum inicia-se com Assembleia Europeia de Mulheres (mais de 3 mil mulheres)
Uma nova interacção entre os feminismos e os movimentos sociais começa a estar colocada na forma como são construídas as agendas e como se articulam.
Ao colocar-se a ideia de que não existe uma contradição principal à qual todas as outras se subordinam, verifica-se uma articulação entre contradições, o que resulta numa conjugação de agendas, sem priorizar umas em relação às outras.
Esta postura - que às vezes traz conflito - tem sido feita na base da clarificação das diferenças na ideia de que este caminho pode levar a um nível superior de reflexão e acção.

Apesar de uma nova onda de movimentações mundiais de mulheres não nos parece que estejamos perante uma nova vaga dos feminimos.
Existem factores novos, mas a realidade é muito diferente de país para país de região para região.

Novos sectores do feminismo emergem em alguns países – jovens da “next genderation”, jovens imigrantes que nas ruas de Paris marcharam sob o lema “Nem putas, nem submissas” contra as novas formas de opressão das raparigas nas periferias dos grandes centros urbanos, jovens estudantes dos “gender studies” nas universidades, jovens que se mobilizam em torno dos movimentos alterglobalização, ...

Contudo o movimento feminista ainda não envolve amplos sectores de jovens mulheres.
Há sinais, mas são apenas sinais,...

Não estaremos perante um feminismo global.
Os feminismos chegam a este processo global de forma diferente do passado. Não com uma identidade única.
Como afirma Rosi Braidotti, há necessidade de renomear o sujeito feminista como uma entidade múltipla, aberta e em sintonia.

As actuais mobilizações de mulheres a nível mundial levantam a necessidade de reconceptualização das mulheres como grupo social sem o essencializar ou normalizar.

Segundo Iris Young, sem uma conceptualização das mulheres como grupo social a política feminista perde consistência.

Vivemos um tempo em que novos desafios estão criados em termos de pensamento e de acção feminista.

Manuela Tavares
Almerinda Bento

INTRODUÇÃO

Nas últimas três décadas, as transformações ocorridas no mundo, nos planos económico, social, cultural, político e tecnológico têm assentado num processo crescente de globalização cujo cariz neoliberal tem gerado novas contradições e um acentuar das desigualdades. Associado a este processo surgem novos movimentos sociais mobilizadores de milhares de pessoas em fóruns internacionais. Porto Alegre, Florença, Paris e Mumbai são referências de debates plurais onde os feminismos ganham outras interacções. Redes mundiais como a Marcha Mundial de Mulheres revelam novas formas de intervenção pela diversidade e criatividade de outras gerações de mulheres.

Esta comunicação pretende reflectir sobre esta nova dimensão dos movimentos feministas, à luz de documentação recolhida e do envolvimento directo em reuniões e fóruns internacionais. Será que a emergência de redes e acções mundiais na área dos feminismos nos conduz a uma ideia de "feminismo global", reforçando factores identitários homogéneos, ou a diversidade e a pluralidade de sujeitos e acções marcam os feminismos destes tempos de globalização? Que relação se tem estabelecido entre aquelas redes e os movimentos alterglobalização?

Um dos traços que define a globalização é a politização generalizada da cultura, especialmente nas lutas pela identidade e diferença - as lutas pelo reconhecimento, que explodiram nos últimos anos. A viragem para o reconhecimento representa um alargamento da contestação política. Já não restrita ao eixo da classe, a contestação abarca agora outros eixos de subordinação, incluindo a diferença sexual, a "raça", a etnicidade, a sexualidade,.. (FRASER, 2002).{yootooltip title=[(1)]}1 - FRASER, Nancy, "A justiça social na globalização: redistribuição, reconhecimento e participação", in Revista Crítica das Ciências Sociais, Outubro, 2002, pp.7-20.{/yootooltip} Neste âmbito, que significado poderá ser atribuído ao movimento feminista perante o debate, ainda actual, sobre a relevância ou inutilidade da sua existência, articulado com a emergência de perspectivas teóricas pós-estruturalistas e pós-modernas, que trazendo novos desafios às teorias e práticas feministas, não deixaram de provocar também a possibilidade da sua erosão (MAGALHÃES, 2002)?{yootooltip title=[(2)]}2 - MAGALHÃES, Maria José, "Em torno do conceito de agenda feminista", in Ex Aequo, nº 7, APEM, Celta, 2002, pp. 189-198.{/yootooltip}

A evolução das lutas das mulheres nas últimas duas décadas poderá revelar um certo apagamento dos feminismos, contrastando com as décadas de 1960 e 1970 que foram tempos de um novo impulso dos feminismos como movimento social na Europa e nos Estados Unidos, em contexto de mobilização política e do despertar de outros movimentos por mudanças radicais. A pluralidade expressa em diversas correntes e na multiplicidade dos sujeitos mulheres{yootooltip title=[(3)]}3 - Contributo do feminismo negro e das críticas das mulheres do terceiro mundo ao chamado "feminismo branco".{/yootooltip}, a autonomia e a crítica aos paradigmas tradicionais da ciência foram marcas do feminismo da época. Em Portugal, silenciado, porque incómodo, não assumido por muitas mulheres por receio de marginalização, o termo feminismo não fez parte do vocabulário político das décadas de 1970 e 1980, apesar da conquista da democracia e da intervenção de grupos e associações de mulheres que colocaram na agenda política a despenalização do aborto e da presença, nesses grupos, de mulheres que se assumiram como feministas.

Os anos de 1980 e 1990 tiveram em comum uma menor mobilização das mulheres apenas acalentada pela realização de conferências internacionais sob a égide das Nações Unidas. Nairobi (1985), Viena (1993), Cairo (1994) e, sobretudo, Pequim (1995) foram momentos de reflexão e de tentativa de comprometer governos com plataformas de acção para eliminar discriminações, inserindo-se oficialmente os direitos das mulheres na área dos direitos humanos.

No início do novo século 100 mil mulheres mobilizaram-se em 159 países contra a pobreza e a violência, em torno da Marcha Mundial de Mulheres. Estaremos perante um novo movimento internacional e intergeracional de mulheres? Poderemos falar de uma ligação entre a geração feminista das décadas de 60 e 70 do século passado e as novas gerações de mulheres alterglobalização ?

A comunicação que agora se apresenta procura abrir pistas para uma reflexão futura sobre os feminismos nesta era da globalização e sobre a sua ligação aos movimentos sociais de novo cariz que se desenvolvem hoje no mundo.

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