Marcha pela Saúde

Feminismos

Manuela Tavares
29/3/2008


O Congresso Feminista 2008 vai realizar-se no ano do centenário do nascimento de Simone de Beauvoir (1908-1986), uma mulher com particular significado para muitas de nós, cuja vida atravessou grande parte da história do século XX. Daí este texto, que procura homenagear a sua memória.
Simone de Beauvoir foi uma mulher que viveu, pensou e amou em liberdade. Foi uma mulher que recusou convenções, que se envolveu em todos os domínios da vida com uma energia quase selvagem e uma grande sede de liberdade.
Do seu livro, publicado em 1958, “Mémoires d’une jeune fille rangée”, Simone mostra o seu gosto pelo conhecimento, a sua paixão pela filosofia, a sua determinação em ter uma existência marcada pelo direito de escolher. “O destino não existe, depende de nós próprios”, afirmava, então.
O seu pensamento antecipa o feminismo de segunda vaga, que surgiria duas décadas após a publicação de “O Segundo Sexo” (1949), uma marca fundamental no pensamento feminista do século XX, não só porque desconstrói a ideia da “mulher /natureza” presa a um destino biológico - o de ser mãe e esposa dedicada -, mas também porque introduz no discurso político, questões consideradas tabu, como a sexualidade feminina, o direito à contracepção e à legalização do aborto, que tinham sido evitadas pelas feministas da primeira vaga, salvo raras excepções como a de Nelly Roussel e de Madeleine Pelletier{yootooltip title=[(1)]}Nelly Roussel afirma em 1903: “Ninguém tem o direito de impor uma maternidade como ninguém tem o direito de a interditar. Que cada mulher escolha ela própria o seu destino”. Madeleine Pelletier, médica, chega a assumir o direito ao aborto, tendo sido por esse facto presa e internada numa clínica psiquiátrica.{/yootooltip}.
Recordemos a época em que foi publicado “O Segundo Sexo”: quatro anos após o final da segunda guerra mundial, pressão pró-natalista dos governos e para o regresso das mulheres ao “doce aconchego” do lar, os filmes “cor de rosa” em que a “heroína” era sempre uma mulher que casava e que viria a ter uma prole de crianças.
O pensamento libertador de Simone de Beauvoir faz ruptura com tudo isto. Opõe-se ao puritanismo e ao maternalismo do pós-guerra. Rasga o véu do determinismo biológico e explica que as mulheres não têm de estar amarradas a nada, a não ser a elas próprias, como sujeitos autónomos e senhoras do direito de decidir sobre as suas vidas. Ela evoca os corpos das mulheres como territórios livres. Fez, deste modo, a ruptura com o feminismo de primeira vaga no que concerne à sua distanciação das questões relativas à sexualidade e à contracepção.
O seu pensamento como feminista influenciou as obras de Betty Friedan que publica em 1963, “A mística da mulher”, grande sucesso editorial da época e, ainda, as obras das feministas da corrente radical: Kate Millet e Shulamith Firestone que publicam nos anos setenta: “Sexual Politics” e “The Dialectic of Sex”.
Podemos dizer que Simone de Beauvoir esteve sempre à frente do seu tempo.
Uma década antes de Betty Friedan ter desconstruído a imagem de mulher dona de casa da classe média, muito feliz, que alimentava as capas das revistas norte-americanas, Simone põe em causa esse mesmo estatuto.
Vinte anos antes do Movimento de Libertação de Mulheres ter nascido em França, o seu pensamento continha o gérmen das novas reivindicações feministas. Antecipava mesmo uma nova geração de feministas, com quem conviveu nos anos setenta nas ruas de Paris, nas manifestações pela legalização do aborto, na solidariedade para com a jovem de Bobigny julgada por aborto, na presidência da associação “Choisir” pela contracepção e aborto, no manifesto das 343 francesas de renome que declaram já ter abortado, publicado no “Nouvel Observateur” de 5 de Abril de 1971.
Quase quarenta anos dista o seu conceito de mulher, como construção social e cultural – “Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres” - , da obra de Joan Scott: “Gender and the Politics of History”(1988), que introduz o conceito de género como uma construção social e cultural dos papéis assumidos por mulheres e homens, e do pensamento de Judith Butler, que sustenta ser o sexo também socialmente construído em “Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity” (1990). Hoje Simone de Beauvoir é revisitada pelas teorias Queer, que nascendo dos estudos gays e lésbicos contestam a ideia de uma identidade fixa.
Como afirmava Ana Luísa Amaral, num recente artigo no Público: “Simone de Beauvoir abriu caminho para a teorização em torno das desigualdades construídas em função das diferenças. Reflectiu sobre as razões históricas e os mitos que fundavam a sociedade patriarcal e que tratavam a mulher como um segundo sexo, silenciando-a e relegando-a para um lugar de subalternidade”{yootooltip title=[(2)]}AMARAL, Ana Luisa, “Simone de Beauvoir. Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, in Público de 9 de Janeiro de 2008, P2., p. 8.{/yootooltip}.
Mas como todas as grandes figuras de mulheres, Simone de Beauvoir foi alvo de contestação. A recepção de “O Segundo Sexo” em França foi um escândalo. Em Maio de 1949, a revista Les Temps Modernes publicou um dos capítulos do livro que se debruçava sobre “a iniciação sexual das mulheres”, onde se falava do orgasmo, da sensibilidade vaginal das mulheres.
Vinte e dois mil exemplares foram vendidos em duas semanas, mas as críticas choveram de todos os lados, da direita e da “esquerda”. A direita acusou-a de “imoral”, “pornográfica”. Insultos diários surgiam por parte dos sectores católicos conservadores e o seu livro foi colocado no Índex dos livros proibidos, deixando mesmo de ser vendido em algumas livrarias. A esquerda da época, fortemente influenciada pelo PCF e incapaz de vislumbrar ventos de mudança, também fez a sua condenação pública. O Segundo Sexo foi considerado por Jeannete Prenant, como a “suprema diversão inventada pelo campo reaccionário a fim de desviar a atenção das mulheres do verdadeiro combate pela sua libertação”.
Também, por ter sido criticada pela direita e por uma esquerda ortodoxa, Simone de Beauvoir mostrou ter sido “uma mulher para além do seu tempo”, porque anunciava também as rupturas que na esquerda se viriam a dar, tendo como um dos fios condutores o combate ao dogmatismo, incapaz de olhar o marxismo de uma forma libertadora para os próprios direitos individuais.
Estas foram as críticas da época.
Contudo, outras críticas têm surgido ao longo das duas últimas décadas dentro do campo dos feminismos, que me parecem “forçadas”, porque descontextualizadas do período histórico em que surgiu o Segundo Sexo. Estas críticas transformam o pensamento libertador de Simone de Beauvoir numa concepção de “universalismo fálico”, como afirma Júlia Kristeva, na medida em que Simone pretenderia que as mulheres fossem iguais aos homens, sem colocar em causa uma igualdade construída em função dos valores masculinos dominantes. Não colocando em causa a necessidade de nos demarcarmos do “sujeito universal neutro”, que oculta as desigualdades entre mulheres e homens, ou de uma cidadania que não tenha em conta as diferenças, parece-me abusivo transformar o pensamento libertador de Simone de Beauvoir numa herança da qual seja preciso libertar-nos, como afirmava violentamente Antoinette Fouqué no dia a seguir à sua morte, em 1986: “Esta morte não é um acontecimento, mas uma peripécia que vai acelerar a entrada das mulheres no século XXI”. Pelo contrário, faço minhas as palavras de Elisabeth Badinter no dia da sua morte: “As mulheres devem-lhe tanto!”.
Também, contrariamente ao que, por vezes, é levianamente afirmado, o pensamento de Simone de Beauvoir não constituiu um travão e um impasse teórico para o feminismo. Tal, como hoje, não podemos dizer que a desconstrução do sujeito “mulher” fruto de algum pensamento pós-moderno seja em si impeditivo de novos desafios na teorização dos feminismos.
O Congresso Feminista de 2008 como espaço inclusivo dos feminismos, na sua pluralidade de pensamento, acolherá todas as visões que se vierem a fazer sobre o pensamento e a obra de Simone de Beauvoir. Contudo, não poderá deixar de lhe prestar a homenagem histórica como pioneira no pensamento feminista contemporâneo.

Manuela Tavares
29/3/2008

Bibliografia sobre Movimentos Sociais e Feminismos
Organização de Maria José Magalhães

  • Alvarez Sonia E., Nalu Faria e Miriam Nobre (2003) (org.) Dossier Feminismos e Fórum Social Mundial, Revista de Estudos Feministas, Vol 11, nº 2, 2003, Julho-Dez.
  • Alvarez, Sonia E., Elisabeth Jay Friedman, Ericka Beckman, Maylei Bçackwell, Norma Stoltz Chinchilla, Nathalie Lebon, Marysa Navarro e Marcela Ríos Tobar, “Encontrando os feminismos latino-americanos e caribenhos”, Revista de Estudos Feministas, Vol 11, nº 2, 2003, Julho-Dez, pp 541-575.
  • Bento, Almerinda (2006) “O Papel dos Movimentos Feministas na Nova Imagem da Mulher no Mundo”, I Congresso Regional da UMAR Açores.
  • Bessa, Karla Adriana M. (1998) “Posições de sujeito, atuações de género…” in Revista Estudos Feministas, Vol.6 n.1/98, pp 34-45.
  • Canotilho, Ana Paula, Manuela Tavares e Maria José Magalhães (2006) “ONGs e Feminismos: contributo para a cosntrução do sujeito político feminista”, ex aequo, nº 2006.
  • Cardoso, Ruthe C. (1991) "A Sociedade em Movimento: Novos Actores Dialogam com o Estado", in Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 32, Coimbra, pp 129-134.
  • Chejter, Silvia e Claudia Laudano (2003) “Feministas y feminismos en el II Foro Social Mundial de Porto Alegre”, Revista de Estudos Feministas, Vol 11, nº 2, 2003, Julho-Dez, pp 576-585.
  • Cohen, Jean L. (1985) "Strategy or Identity: New Teorethical Paradigms and Contemporary Social Movements", in Social Research, vol.52, nº4 (Winter 1985).
  • Cott, Nancy F. (1986) "Feminist Theory and Feminist Movements: The Past Before Us", in MITCHELL e OAKLEY (org.)What is Feminism? Oxford: Basil Blackwell.
  • Huber, J. (1983) "Uma Girândola de Ideias. O Espectro Político-ideológico do Movimento Alternativo", in HUBER, Joseph (s/d) Wer Soll Das Alles Ändern / Die Alternativen Der Alternativbewegung, Berlin: Rotbuch Verlag.
  • Magalhães, Maria José (1995) “Feminismo um Movimento Social em Portugal?”, in Movimento Feminista e Educação, Portugal anos 1970 e 80, Dissertação de Mestrado, FPCEUP.
  • Magalhães, Maria José (2004) ”, Seminário Evocativo do I Congresso Feminista e de Educação, no prelo.
  • Magalhães, Maria José, Fernandes, Laura e Oliveira, Olga (1991) História de Vida de Uma Operária Corticeira, Lisboa: ONG CIDM.
  • Offe, Claus (1985) "New Social Movements: Challenging The Boundaries of Institutional Politics" Social Research, Vol. 52, nº 4 (Inverno de 1985), pp 817-868.
  • Offe, Claus, (1984) "Teoria do Estado e Política Social" in Problemas Estruturais do Estado Capitalista, Rio, Tempo Brasileiro, 10-53.
  • Riepenhausen, Thomas (1984) Teorias e Práticas Alternativas na Alemanha de Hoje,  Porto: Edição Terra Viva.
  • Riepenhausen, Thomas (1985) Aquela Alemanha Que Vos Seduz, Porto: Edição Terra Viva.
  • Santos,  B.S. (1991) "Subjectividade, Cidadania e Emancipação", in Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 32, Coimbra, 1991.
  • Santos,  B. S. (1985) "Estado e Sociedade na Semiperiferia do Sistema Mundial: o Caso Português" in Análise Social , Vol XXI (87-88-89), 1985, 3º, 4º e 5º (pp.s 869-901).
  • Santos, Boaventura Sousa (2000) A Crítica da Razão Indolente. Contra o desperdício da experiência, Porto: Edições Afrontamento.
  • Sheth, D.L. (2003) “Micromovimentos an Índia: Para uma Nova Política de Democracia Participativa”, in Boaventura de Sousa Santos (2003) Democratizar a Democracia. Os Caminhos da Democracia Participativa, Porto: Edições Afrontamento, pp 73-111.
  • Tavares, Manuela (2002) “Esta globalização não é apenas neoliberal, é também sexista”, Lisboa: FSP, no prelo.
  • Tavares, Manuela, Almerinda Bento e Maria José Magalhães (2003) “Feminismos e Movimentos Sociais em tempos de Globalização: o caso da MMM”, Coimbra: VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, Coimbra, Setembro 2004.
  • Tavares, Manuela, e Almerinda Bento (2005) “Fóruns sociais e feminismos: articulação, ainda, de baixa intensidade”,
  • Touraine, Alain (1985) "An Introduction to The Study of Social Movements", in Social Research, vol 52, nº 4, 1985.
  • Touraine, Alain (1992) Critique de la Modernité, Fayard, Paris, pp 258-264 e 271-294.
  • Young, Iris Marion (1990) Justice and The Politics of Difference, Princeton: Princeton University Press.

Biografia de Rosalina Filomena da Cunha e Soares Rebelo (1908-2007), nome literário Filomena da Cunha para Dicionário no Feminino, (séculos XIX-XX) Vol II, Livros Horizonte, coordenação de António Ferreira de Sousa e outros….

Rosalina Filomena da Cunha e Soares Rebelo, nome literário Filomena da Cunha nasceu em Goa - Santa Cruz em 17 de Maio de 1908. Filha do escritor, jornalista e comerciante Joaquim João da Cunha e de Rosa Maria da Cruz foi uma das feministas pioneiras na ex-colónia portuguesa da Índia, onde se notabilizou pelos seus escritos nos jornais locais e pela sua participação em Portugal Feminino de cuja revista foi Delegada na então Índia Portuguesa.
Filomena da Cunha frequentou o Curso Secundário na University of Cambridge de 1923 a 1925 bem como o Curso de Piano e Música do Trinity College of Music, de Londres, em Secunderabad na Índia. De 1927 a 1930 foi aluna do Curso de Medicina da Medical School, Agra (Índia), que interrompeu devido ao paludismo. Nessa época a jovem iniciou a sua colaboração na imprensa de Goa, nos jornais O Herald, Jornal da Índia, e O Independente e ainda de Lisboa, da citada revista Portugal Feminino, por um período de sete anos.

Entre 1937 a 1938 fez o Curso de Guarda-livros e Contabilidade na London Chamber Commerce e de Fellow do Instituto of Book-keepers, de Londres. Nesse mesmo ano fundou e dirigiu o Instituto de Comércio e Taquigrafia em Margão. A partir de 1939, após a morte do pai e até ao casamento, tomou o seu lugar na gestão da sua firma J. J. da Cunha Nova Goa. Interessou-se por várias matérias, percorreu diferentes currículos, desde música, medicina e contabilidade, etc. Foi atenta à causa das feministas e foi interveniente nessas lutas, divulgando-as através dos seus escritos, teses, conferências e encontros.
Filomena Cunha casou em 1 de Dezembro de 1941 com Domingos José Soares Rebelo tendo o casal estabelecido residência no Quénia, onde entre 1942 e 1945 foi professora de contabilidade e estenografia da escola júnior e sénior na localidade de Mombaça. A partir dessa data o casal vai para Lourenço Marques onde vive até 1975, ano em que chega a Portugal. De 1976 a 1980 habita na Vila da Nazaré e depois em Alcobaça, onde veio a falecer no dia 1 de Fevereiro de 2007.
Deve-se ao seu marido, historiador Domingos José Soares Rebelo, a colectânea dos seus escritos dispersos na imprensa a que deu o título de Ao Sopro das Brisas Fagueiras do Índico, e que foi publicada em Alcobaça no ano de 1997. No prefácio o marido refere-a como a então paladina feminista de Goa e afirma que o grande valor desses seus escritos vêm do facto de estarem ainda hoje actualizados, em relação às lutas das mulheres nos países onde a legislação não é efectivamente democrática.

O livro apresenta-se dividido em três partes. Em primeiro lugar, figuram dez artigos sobre o movimento feminista. Seguem-se três ensaios, um sobre o sorriso, outro sobre a figura célebre do goês Abade de Faria e o último dedicado à «Índia e seus encantos» publicado em Portugal Feminino (Ano VI, de Maio de 1936) com três fotogravuras: cascata de Sud-sagor, Taj mahal e Mesquita. Este artigo foi posteriormente reproduzido na integra pelo semanário O Independente em 16.06.1936 acrescido de uma prévia introdução. A terceira parte do livro apresenta as «anotações suplementares», nas quais uma súmula sobre os jornais em que Filomena colaborou bem como sobre a revista Portugal Feminino, enquadra o contexto dos anos trinta que esta obra retrata com o subtítulo Filomena da Cunha e os órgãos de imprensa, seguido de Referências aos escritos de Filomena Cunha, onde o autor regista «palavras de apreço com que a sua colaboração foi saudada e registada ainda em artigos de fundo». O índice completa-se identificando as catorze ilustrações de flores campestres utilizadas na separação dos textos. A terminar surge a bibliografia do autor e as suas participações em congressos. Este livro é parte da história da juventude de Filomena da Cunha que reentrou na sua vida no dia do quinquagésimo sexto aniversário de casada como presente surpresa de seu marido e familiares.

O seu trabalho de escrita preenche um dos vazios na história dos movimentos de mulheres em Portugal. A falta de circulação de notícias entre as ex-colónias portuguesas e a metrópole não permitia que o que se passava em Portugal chegasse a Goa, embora o mesmo não se passasse em relação ao resto do mundo. Filomena da Cunha traduzia nos seus artigos, com genial poder de síntese, preciosas informações sobre os movimentos feministas do seu tempo, que atestam dela uma criteriosa investigadora sobre as lutas e ganhos obtidos a favor da emancipação das mulheres. Na sua escrita enumera os nomes das mulheres protagonistas, o que de maior relevo acontecia na Europa, Turquia, Egipto, Rússia, China, Japão e sobretudo na Índia, onde, afirma «apesar da diferença de religião, costumes e castas, as mulheres indianas de todas as condições sociais deram o seu contingente à causa da emancipação da mãe-pátria. Durante o tempo em que durou a desobediência civil, o movimento feminista fez progressos maiores do que durante a última década» (in O Heraldo, p. 2 cols. 1/2 de 02.07.1931). Noutro artigo refere: «Mrs. Sarojini Naidu, a distinta poetisa e fluente oradora de fama mundial, quando há pouco presidiu á conferência anual da Associação Indiana das mulheres, reunida em Madrasta, falou assim: «cada uma de vós deve fazer um cauteloso exame de consciência e perguntar a si própria como é que eu contribui pela causa da mulher, pelo progresso da minha terra e pelo progresso do mundo» (in diário Jornal da Índia de 10.09.1934). Preocupa-se em tratar das mais variadas teses nos mais variados países, desde as questões politicas, «Na Inglaterra muitas senhoras como Lady Cynthia Mosley, […] foram eleitas deputadas ao Parlamento (ou, M.P.) e a Miss Margaret Bonfield é a primeira mulher no Governo Laborista a ocupar o árduo cargo do Ministério de Trabalho. Miss Susan Lawrence M.P., há pouco presidiu à Conferência Anual do Partido Laborista e é a primeira vez nos anais da história que uma mulher teve esta honra» (in O Heraldo p.1, cols. 3/4 de 01.11.1930), às económicas «Uma japonesa, Mme. Suzuki, que é uma das mais ricas mulheres do mundo, é banqueira e negociante de arroz». (in O Heraldo, p. 2 cols. 1/2 de 02.07.1931), passando pelas aviadoras: «Miss Amy Johnson […] efectou sozinha no seu aeroplano Moth Jason o voo entre o aeródromo de Croydon (Inglaterra e Sydney (Austrália.)», (in O Heraldo p.1, cols. 3/4 de 01.11.1930) às conquistas legais «Na China […] devido ao decreto do grande reformador dr. Sun-Yat-Sem, as mulheres chinesas têm direitos iguais aos dos homens», (in O Heraldo, p. 2 cols ½ de 02.07.1931). Regozijou-se com as reformas de costumes inferiorizantes para as mulheres: «Na Turquia Musfatá Kemal Pashá tem trabalhado bastante pela emancipação da mulher; aboliu o uso do véu e a poligamia; promulgou iguais direitos tanto ao homem como à mulher, in (opus cito, ibidem), «É espantoso o progresso feito pelas mulheres nos últimos anos, tanto no Ocidente como no Oriente. Temos na vizinha Índia muitas mulheres que há poucos anos viviam na reclusão de zenana e não saiam à rua sem se cobrirem dum burka (pano comprido) e sem se meterem cautelosamente numa carruagem fechada. Agora porém a teansfromação é completa. É certo que ainda existe uma insignificante percentagem de mulheres indianas, especialmente no norte, que não aboliram completamente até hoje o purdah.» (in diário Jornal da Índia de 10.09.1934). Em relação às mulheres portuguesas escreveu nesse mesmo jornal «Em Portugal também a mulher se tem despertado e vai fazendo progressos, mas o movimento feminista português não é conhecido pelo mundo fora porque a sua voz ainda não se fez ouvir em nenhuma reunião internacional. Sobre esta opinião escreve em nota de roda pé o marido e editor: A participação da médica (1900) e sufragista portuguesa Adelaide Cabete (1867/1935) nos Congressos Internacionais Femininos de Gand (1913), Roma (1923) e Lisboa (1924) era desconhecida da Autora então vivendo nas longínquas terras da India. (in Ao sopro das brisas fagueiras do Indico, p.25)

Os seus relatos mostram como uma jovem portuguesa na Índia percepciona as outras mulheres suas contemporâneas que lutavam pela igualdade dos seus direitos, as vitórias que alcançavam incluindo as relativas aos vestuários, na partilha dos espaços públicos e privados.
Sobre a educação das mulheres, incluindo a educação física, a feminista, regista no artigo A MULHER NA ÍNDIA PORTUGUESA a falta de recursos e de escolas para a formação das raparigas: dizer que uma menina não necessita de instrução sólida será um disparate igual ao que se dissesse que um rapaz também dela não precisa (no jornal diário O Heraldo (Pangim, Goa, Ano XXXI, Nº 8461, pp.1,cols.3/4, de 18.11.1930). Uma expressão clara sobre o que entende ser a igualdade de oportunidades e não hesita em apontar pistas de soluções ao alcance das próprias mulheres. Por exemplo, perante as elevadas taxas de analfabetismo das mulheres Filomena da Cunha dirigia a seu olhar para as raparigas que já na altura tinham cursos de Liceu, Farmácia, Medicina e Escola Normal. Sugeria-lhes que se organizassem em Associações ou Clubes, onde semanalmente pudessem dar apoio a outras mulheres nas áreas que dominavam a fim de contribuírem para a saúde das mulheres e sua educação sexual: As associadas médicas podiam, de vez em quando, fazer conferências ou demonstrações rudimentares sobre a higiene, primeiros socorros nos acidentes, tratamento das crianças, bebés, etc.”...(diário Jornal da Índia, Nova Goa, Ano II, N.º463, pp.1,col,1/3 de 20.02.1935).

Filomena da Cunha empenhou-se sobretudo a assinalar exemplos positivos de empenho, coragem e de conquistas bem sucedidas na longa estrada percorrida pelas feministas em prol do bem-estar de todos. Os seus escritos relatam as lutas das mulheres nos países do Oriente e Médio Oriente e também em Inglaterra não só com intuito de serem divulgadas pelo seu interesse de actualidade, mas também porque as apoia tecendo apelos para que essas novidades revolucionárias a favor da condição feminina tenham eco nos corações dos seus leitores e leitoras e sobretudo encoraja as mulheres. No artigo Ecos dum Congresso Feminista descreve: «As vastas salas que, há poucos anos atrás, eram povoadas de sedutoras odaliscas, zelosamente guardadas, forma invadidas pelas suas modernas compatriotas, libertas dos jugos tradicionais, usufruindo direitos políticos em igualdade com o homem, e pelas representantes de mais de 30 nações […] A representante do Brasil, um dos países que como a Turquia, concedeu todos os direitos políticos à mulher, fez uma viagem aérea de 5 dias para assistir ao Congresso. Jamaica foi representada por uma delegada de raça negra que surpreendeu as congressistas pela sua invulgar inteligência. O Egipto mandou 15 delegadas, chefiadas por Mme. Houda Charoui, e a Índia foi representada por duas delegadas muçulmanas, Begum Hamid Ali e Begun Hussein. O Congresso foi presidido por Mrs. Ashby Corbett, de nacionalidade Inglesa.[…] Lady Astor da Inglaterra disse que embora em certos países o ambiente não seja dos melhores para o sexo feminino, não se deveria desanimar, porque serão tomadas medidas para se reconquistar os direitos perdidos» in O Independente, 23.07.1935. este artigo foi transcrito em Portugal Feminino, Lisboa Ano VI, n.º 69, pág.13 em Outubro de 1935 com uma fotogravura da autora sobre os dizeres: A nossa prezadíssima amiga e colaboradora Filomena Cunha, jovem e talentosa feminista, que no Jornal da Índia, tem publicado curiosos artigos em defesa da causa que a inclui entre as suas mais combativas paladinas. E assim seria daí a poucos meses a jovem Filomena Cunha teria de enfrentar pela escrita um combate pela sua causa, a luta pelos direitos das mulheres. Um leitor que se assumiu contrário à emancipação das mulheres e atacou-a directamente pelas suas ideias feministas. É através da sua resposta a esse artigo que se sabe como agiam então alguns delatores das causas feministas, embora muitos desses argumentos tenham perdurado muitas décadas depois disso, e também como a paladina feminista de Goa retorquiu ao seu opositor quando disse “as mulheres tornavam[-se] feministas quando não viam possibilidade de arranjar marido...” ao que Filomena respondeu: “Isto é positivamente deslocado. Mrs. E. Pankurst, a conhecida Sufragista inglesa de saudosa memória, era casada; ela e as suas duas filhas Cristabel e Sylvia foram chefes do Partido Sufragista Feminino. A Presidenta do 12º Congresso da Aliança Internacional para o Sufrágio Feminino foi Mrs. Ashby Corbett; e ela é casada. Me. Halide Edib, a mulher que tanto lutou pela independência da Turquia e pelas suas compatriotas é casada e tem filhos. Existem tantos outros exemplos que seria fastidioso enumerar.” A outro argumento do antifeminista: “se antigamente as leis restringiam a esfera de acção das mulheres, não era com o intento de as prejudicar, mas de defendê-las do poder absorvente do homem”, Filomena objectou: “Os trabalhos extenuantes e rudes como cavar debaixo do sol e da chuva, cultivar a terra, ser costureira trabalhando até altas horas da noite, ser engomadeira, trabalhar horas intermináveis nas fábricas com remuneração inferior à do homem, que executa iguais trabalhos, não lhes eram vedados, mas só os bem remunerados, esses sim, eram feitos para os homens. Significará isto defendê-la do poder absorvente do homem?”
São dez os textos sobre a temática feminista da primeira parte do livro Ao sopro das brisas fagueiras do Índico: A mulher Moderna; A necessidade da instrução feminina; O movimento feminista nos países orientais; Progresso feminista; As mulheres na Índia; Conferência das mulheres na Índia; Conferências interessantes; A mulher na Índia Portuguesa; Ecos dum congresso Feminista e Ao antifeminista.

Cristina Henriques, escritora e poetisa que fez em Coimbra a apresentação do citado livro classificou-os como: «um pedaço mágico de prosa, pela doce alegria que empresta às palavras, pelo fundo sereno de uma alma plena de optimismo, pela sábia arquitectura da palavra e da frase» (Manto de mulher, revista Munda, Coimbra n.º 35, Maio de 1998, pp 69-78).
Filomena da Cunha deixou além dos escritos de juventude outras heranças literárias que reservou ao ciclo familiar incluindo um livro de histórias dedicado à sua bisneta Beatriz. O companheiro tem preparada a obra Contos, Fábulas e Parábolas, uma edição comemorativa para o 1.º centenário do seu nascimento que ocorrerá em 2008.

Bib:
Da autora: textos publicados imprensa: Jornal da Índia (diário), Nova Goa - 10.09.1934 / 27.09.1934/11.01.1935/19.02.1935/20.02.1935/ 20.07.1935 e 10.08.1935. O Heraldo (diário), Nova Goa: 01.11.1930/ 18.11.1930/ 02.07.1931. O Independente 08.10.1935/23.07.1935 e 16.06.1936; Portugal Feminino, Lisboa, Maio de 1936; Contos para Beatriz , Alcobaça (2005 - inédito)

Outros: Acácio Lopes Ribeiro, Filomena da Cunha, uma escritora feminista, in Região de Cister, Alcobaça, n.º 576, 02.09.2004 ; Lembrando a escritora Feminista in a Voz de Alcobaça, 321.12.2005.
Cristina Henriques, Manto de Mulher, Revista MUNDA, Coimbra, Maio de 1998, pp.69-78.
Branca de Noronha, Portugal Feminino, Lisboa. Ano VI, nº69 (Out.1935)
Cristina Henriques - Manto de Mulher in rev. MUNDA, Coimbra, nº35 (Maio/1998)
Domingos José Soares Rebelo, Ao sopro das Brisas Fagueiras do Índico, ed. Autor, Alcobaça 1997;

Domingos José Soares Rebelo - L’abbé de Faria trad. Em inglês do artigo de Filomena da Cunha (Mapuca-Lupa - Outubro/1935) in Goans - Abroad and in British Lands (A study) Alcobaça, Quénia, 1944; “Portugal Feminino” - Arauto do Feminismo Português nos Anos 30 do século XX in Região de Cister, Alcobaça, nº471, 2002); No 1º centenário de Nascimento da Feminista Dra. Elina Guimarães 1904/91, Alcobaça (Maio/2006) Escritores goeses em prol da Criança e da Mulher, séc. XIX/XX (apontamento histórico-literário).
ESBOÇOS (rev mensal), Coimbra, nº12 (Maio/1999) Casa Municipal da Cultura, Coimbra; o artigo “Portugal Feminino - arauto do feminismo português nos anos 30 do século XX”, in nº52 de Setembro de 2002

Página da Educação (A), (revista mensal), Porto - Ao sopro das brisas fagueiras do Indico (apreciação critica pela Redacção da revista) em Internet (http://www.apagina.pt/arquivo/artigo.asp?ID=312) e reedição do artigo de Filomena da Cunha: necessidade de Instrução Feminina in A Página, nº114 (Julho/2002).
Mário Cabral e Sá - Pointless controversies in Goa Today (May 2001) (http://www.goacom.com/goatoday/2001/may/mattinoffaestly:html)
Rufino de Lemos (autor anónimo do artigo o Feminismo) in Jornal da Índia, Nova Goa de 06.08.1935 com a réplica de Filomena da Cunha intitulada ao anti-feminista no dito diário nº507 de 10.08.1935.

Voz do Oriente (ver. trimestral) Lisboa, ano IV, II série, nº13 (Inf. Set. 2002) -Portugal Feminino - arauto do Feminismo Português nos anos 30 do século XX.

Um artigo de
Lúcia Serralheiro

Mais artigos …